segunda-feira, 8 de junho de 2009

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sexta-feira, 29 de maio de 2009

CANSAÇO


Estou tão cansado ultimamente, que já nem sei mais o que me cansa. Se é tudo. Se é somente algumas coisas e o cansaço se espalha na minha vida... Não sei bem. Só sei que esse cansaço não tem sido em vão. Junto com isso tudo vem uma necessidade inexorável de mudança. E qualquer mudancinha já não me serve mais. Eu quero acordar amanhã com tudo diferente, se possível com o céu de outra cor. Embora saiba que isso é realmente impossível, eu quero que algo mude, seja lá o que for. Eu tenho uma suspeita séria que as coisas da minha vida estão me atrapalhando a continuá-la da maneira adequada, mas ainda não sei exatamente o que e onde mudar tudo. A minha proposta para mim mesmo é não me esconder mais dos meus problemas, das coisas que me atrapalham.

Talvez eu faça uma lista de tudo que me incomoda. Talvez eu publique numa seção de anúncios classificados, talvez eu reúna todos ao meu redor e leia a todos o que me incomoda. Talvez eu me cale ainda mais. Mas uma hora, quer eu tenha decidido esconder, quer eu tenha decidido gritar aos quatro ventos, eu terei de tomar uma atitude ainda mais séria. E o que fazer? Ainda não sei. Então decidi perguntar a mim mesmo o que eu quero e não tenho me conformado com a primeira resposta que me surge. Mas coisas me incomodam e incomodam muito. Tenho passado por problemas sérios, cansaços, mortificações, conflitos, brigas sérias. E queria que isso tudo passasse, para sempre...

Talvez um ultimato a quem me incomoda, talvez alguma coisa. E eu farei. Farei mesmo. E farei logo, assim que eu puder. Se possível ainda hoje. Mas hoje, eu já tenho tanto a fazer... Isso! Talvez seja isso. Coisas demais a fazer. Preciso me desfazer delas, o mais rápido o possível. E dedicar-me a coisas que eu gosto de fazer: ler, desenhar, pensar, criar, imaginar, escrever, passar a limpo a minha existência, folha por folha até que reste um belo livro de páginas organizadas. Talvez falte-me um plano para manter a minha casa organizada, a despeito do excesso de obrigações que me impedem de recolher a roupa suja do chão ou de lavar um prato após a refeição. Mas isso durará pouco. Durará sim... Eu prometo. Pelo menos enquanto eu estiver sozinho, eu farei o que eu puder.

Eu quero o meu tempo de volta, eu quero as minhas coisas no lugar em que eu deixei. Não que alguém além de mim tenha mexido. Mas a minha cabeça está tão cansada que tenho perdido a noção de quando tenho mexido eu mesmo em minhas coisas. Estou cansado, estressado, mortificado por uma porção de coisas que nem eu mesmo sei se estão ou não fazendo isso comigo. Tenho de continuar a perguntar-me tudo. E evitar os rompantes de ódio e de ojeriza que me assaltam de cinco em cinco minutos. Estou diferente, eu sinto. Estou diferente e não consigo agir com o mesmo ânimo e com a mesma vontade de antes. Espero não machucar e nem magoar a ninguém.

Espero também que não me peçam para agir do modo que eu não quero. Espero mesmo. Vamos ver o que vai dar hoje...

sábado, 11 de abril de 2009

O POETA


O poeta é virgem néscia
Que se esquece do azeite da candeia.
O poeta é mártir sem causa
A morrer por si mesmo.
O poeta é expiação, Cristo de sua religião.
O poeta é pintor de paredes que não existem.
É homem de profissão inútil.
Nasceu com mãos e olhos únicos
E visões de um futuro inexplicado
Traduzidas simbolicamente
Incompreensíveis até mesmo a si.
O poeta é morto-em-pé,
Dormita de candeia acesa
Morto, é poeta.
Vivo, é poeta.
Carta fora do baralho, é poeta.

domingo, 22 de março de 2009

BELO


Como eu sou bonito, exclamo da frente do espelho que nunca rirá de mim!
Acordo com meus olhos empapuçados do sono que nunca é o suficiente para descansar,
Olho-me nos olhos embaçados,
Cambaleio de um lado a outro até chegar no trabalho, como eu sou lindo!
Há dez quilos atrás essa roupa caía-me como uma luva,
Os olhos de quem me olha é um espelho perfeito, sem curvas, distorções ou aumentos,
Invento coisas para me recobrir para que se realce aquilo que eu posso oferecer
Àqueles que me olham sem pedir permissão.

Como eu sou bonito, penso olhando nos olhos daqueles que riem quando eu apareço!
Passo pelas pessoas chamando a atenção para mim.
Olho-me nas faces que passam e se abaixam ao perceberem que percebo.
Ando por aí até que sinta que já se acostumaram.
Há tanto tempo que isso acontece.
A face dos outros é um espelho mais perfeito ainda.
Passo por isso sem dar a devida atenção para o problema.
A vida é mais que uma mera vaidade, eu sei.
E retribuo de cara fechada, olhares que me julgam na passarela do cotidiano.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Carlos

Carlos me contou ontem que tinha ganhado um prêmio de loteria. “Que bom”, disse. “Quanto foi, já depositou na conta?”.
— É bicho camarada! Meu pai explicou como é que aposta, muitos anos atrás, então, passando por uma banca aqui, eu resolvi arriscar. Então eu fiz e ganhei dois mil, cara! Já dá para comprar um pouco do material para a exposição, faltam uns detalhes... Que bom, eu não ganho nada, nunca!
— Interessante, eu disse finalmente. Sabia que isso é contravenção? Não lhe preocupa?
— Claro que não, mané! Vou montar o meu portfolio hoje mesmo, vou fazer bonito numa exposição coletiva daqui a um mês. Eu teria de contrair um empréstimo para comprar material e montar para tal exposição em São Paulo. Quem sabe um prêmio... Andei pela zona rural, fotografei até os canaviais, de cima das montanhas...
E havia poesia nas intenções de Carlos, e na sua maneira de gesticular, e no fato de encontrar-me naquela esquina horrenda, na frente de uma horrorosa borracharia, e no fato de sonhar alto ou baixo, sei lá, na minha frente. E eu a desconstruir seu discurso, sendo impertinente e analista demais. Carlos é tão bom, sinto-me grato a Deus por seu amigo. E ele é tão dinâmico. Depois que o encontro, passo bem uma hora pensando sobre ele. Carlos tem olhos verdes. Minha maior frustração é ter olhos castanhos demais, além de ruins, insuficientes, fotofóbicos. Carlos devaneia nas suas fotos e eu me sinto invejoso porque não sou como Carlos. Ele é mais baixo que eu, que sou apenas médio, mas ele é mais bonito, está em forma, tem um grande talento e ganhou ontem no jogo do bicho! Carlos anda de bermuda, chinelos e camiseta-regata, com sua beleza à mostra e eu em roupas bem largas a esconderem as minhas formas horrorosas. Carlos estudou arte, fotografa bem e está aqui nesse buraco no interior porque o pai trabalha aqui. Eu não queria ser Carlos. Às vezes eu me reprimo por ser pouco afetuoso com ele, sem ser da maneira que deveria.
Ele gosta de Janis Joplin, e um dia perguntou-me, numa fila de banco, se eu conhecia “Piece Of My Heart”, da cantora. Talvez porque me visse com um CD na mão. “É a minha favorita”, disse eu. E batemos um papo legal. E ele falou de sua família, de sua namorada, eu falei de minha cadelinha, da minha família. Trocamos emails e ele almoçou lá em casa, para delírio das meninas. E conversamos sobre Freud, do qual ele não gosta de verdade. Apresentei a ele muitas músicas que eu gostava, creio que pensou que eu fosse um esquisito. Sempre achei relativos certos conceitos como bom, ruim; afinado, desafinado; certo, errado; e outros mais. Quando disse isso a ele, ele me disse: “O quê?” Pensei: Calma, vá devagar. Ele é homem. Nunca prestaria a devida atenção a isso...
— Passe lá em casa.
Esse foi sinal máximo de um pacto de amizade, eu deveria ficar lisonjeado depois disso.
— Tá, disse eu. Cada vez menos quero ver Carlos, menos quero encontrá-lo. Ele é aquilo que não sou no intelecto, aparência e modos. Temos apenas alguns pontos de contato. Então andar com alguém mais bonito que você, mais atraente e interessante, mais sortudo, oriundo de uma cidade mais desenvolvida; criativo; cheio de mulheres; chega! Já nem auto-estima tenho. Ah, esqueci-me de que não creio em auto-estima.
É chato vê-lo se esforçar por levantar algo pesado e mostrar sua musculatura. É chato vê-lo sorrir em mármore luzidio, olhar em setas fulminantes para mulheres, andar de papetes e jeans sem camiseta na rua, enquanto eu, eu somente feio, feio, feio, feio. Carlos é um pseudo-intelectual, com profissão e diploma universitário.
Penso que o amo como amaria a um irmão, mas posso competir com ele?
Ele exaure todo o oxigênio do ar respirável quando chega a algum lugar onde estou. Ele ilumina tudo a ponto de me ofuscar. Completamente.
E mais essa ainda? Ganhou no jogo do bicho! Demais. Uma pergunta sua me desperta desse torpor:
— Aonde você vai?
— Vou à biblioteca, depois tenho aula à tarde, e à noite. A gente se vê. Vai estar na Internet?
— Bem, ele diz. Espero, mas não gasto muito telefone, você sabe! (E eu penso: logo você acha alguém para bater papo, e adeus...) E aquela garota? Bem, se ela atender a um telefonema hoje, quem sabe, mas estou mais interessado em minhas fotos...
Carlos acena amarelamente enquanto eu engulo a seco o pejo, a frustração por ser a combinação perfeita de DNA que resultou em piada biológica de primeira. Adeus Carlos, tchau, Carlos, até mais Carlos, falou Carlos. Eu luto entre o sintagma e o paradigma, até que me viro balançando a mão para ele. De repente jogar-me embaixo daquele caminhão pareceu-me um pouco atraente para aquela manhã que só me dava mais cinco minutos até ao meio-dia.
Carlos fala como quem sabe ou não das suas qualidades e defeitos. Eu gosto dele, mas quando tudo o que ele quer é tomar cerveja e jogar bola eu digo: “Há companhia melhor que eu”. Estou falando sério, Carlos. É claro que não vou à Igreja hoje, mas ir para boteco para ficar a noite inteira ouvindo besteira e música sertaneja? Nunca! Anti-social, eu? Era o cara que inventou esse tipo de música... Nem morto, como? Deixa para lá. “Deve ser realmente muito bom para ele, penso”. Para ele e os outros porque não me apetece esse tipo de programa. Coisa que não faço nem por pessoas mais especiais...
Essa conversa, por telefone, aconteceu pelo menos três vezes e numa delas a minha mãe ouvia tudo, repreendendo-me severamente ao final. “Não, mamãe, não estou escorraçando ninguém, mas sei lá...”.
Bem, eu me mentalizo lá, a tomar guaraná com rodelas de laranja, ouvindo as suas piadas engraçadíssimas. Ele tomando a cerveja da moda, não sou eu quem gosta disso. Por que me comprometi a esse ponto, então? Imagino-nos lá, então o papo transita por vários assuntos e em todos eles a minha opinião é diferente, então alguém se irrita comigo, diz que isso não é papo para mesa de bar. Isso não é mente para mesa de bar, penso comigo.
Carlos de novo ao telefone, e eu:
— Diz que eu não estou, mamãe.
É o tempo que preciso para deixar a cama e desligar o celular. Eu gosto do Carlos, mas somos muito diferentes para sermos amigos do peito. Ontem ele me ligou dizendo que as fotos ficaram tão boas que vem aqui me mostrar. Ah! Houve um dia na minha vida que tudo o que quis eram amigos, pessoas a me visitar... Ah...
Meu senso estético destruíra a minha amizade com ele.
Mais um para me preocupar do dia do meu aniversário. Vou ter de sair correndo daqui, vou ter de ter uma estratégia para esse dia...
14 de novembro de 2005.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

ODEIO


COISAS QUE EU ODEIO
Alex Mendes

ônibus cheio; mancha de café na camisa recém-vestida; computador lento; mão naquilo e aquilo na mão; pé de vento; pé de valsa; uma mão lava a outra; pão mofado; pão que o diabo amassou; programa domingo legal; habeas corpus preventivo; máquina de fazer cappuccino; meia furada; gel de arnica; dez paçoquinhas só paga um real; meio limão cortado na geladeira; cartão corporativo; celular clonado; fatura de cartão de crédito; celular sem crédito; celular sem sinal; fone de ouvido estragado; cera de ouvido saindo para fora; pêlo do nariz; óleo de fígado de bacalhau; arnaldo jabor; leve três e pague dois; carne de pescoço; aparecida liberato; ritmo de festa; mutirão; trabalho coletivo; supremacia ariana; peito de frango congelado; óculos vencidos; meias de nylon; garrafa PET; reforma na casa; ferro de passar comum; promoção de calçados no monte; partícula apassivadora se; carro da pamonha; tapa na cabeça; pinto no lixo; condoleeza rice; cão de guarda; bicicleta feminina; cesariana; calota de fusca; carne entre os dentes; pisada no pé; gerúndio; pé-de-moleque; jiló; boris casoy; dobradinha; carne cozida com cenoura; atriz pornô; pombos; yakult; flan de baunilha; café frio; o bolo do divino; helena blavatsky; sol do meio-dia; som automotivo; cd arranhado; programa do gasparetto; comercial de cerveja; chiclete mascado; hálito de pinga; cerveja; caipirinha; caipiruva; caipiroska; morar longe do trabalho; sílvio santos; romance mediúnico; romance de banca de revista; última temporada da série preferida; novela das oito que só passa às nove; pente cheio de cabelos, creme dental sem tampa; papel higiênico no chão; torneira pingando; brokeback mountain; torta salgada; fila de caixa; pagar no cartão em até 10x; sexo frágil; noite quente; cobertor de poliéster; sala de cinema; fumaça de cigarro; pequi; paulo francis; programa da igreja universal; exorcismo na tv; simpatia; encosto; água parada; resto de sanduíche; pia entupida; gordura localizada; peso morto; tampa de vaso molhada; leite de cabra; rinite; dicionário de nomes; envelope de carta resposta comercial; interurbano a cobrar; bueiro entupido; caixa de gordura; placa de aluga-se; vendedor ambulante de terminal de ônibus; atraso de correspondência; lote baldio; cheiro de mijo; porta de cadeia; falta de educação; teclado com defeito; parte com o diabo; robin williams; übermodel; mercado de ações; hamilton carneiro; custo real efetivo; mamão; salário-família; bolsa família; bolsa escola; bolsa alimentação; vale gás; cartão do cidadão; desmatamento; curso de capacitação; reunião com a diretora; rua de mão única; cartaz feito à mão; pintura em tecido; ponto facultativo; permissão para dirigir; contrato de gaveta; código de barras ilegível; axé; caixa automático em manutenção; livro do ano; lista de presentes; carteira de trabalho; sangue, suor e lágrimas; portador de benefício; crise de gota; lágrimas de crocodilo; hebert vianna; emprego de meio-período; trabalhar no sábado; música evangélica; jogo de truco; ereção involuntária; jogo de palito; ganhar 50 centavos na raspadinha; perder a tampa da caneta; festa de casamento; álbum de família; foto digital com retoque; bibelot de louça; porta-treco; carta de recomendação; acordar de madrugada; lembrancinha de fim-de-ano; brincar de amigo secreto; ganhar roupa ou perfume de presente; forró em casa de dança; lavar carro; limpar teclado de computador; matar ratazanas; macaquinhos no sótão; esqueletos no armário; pochete; calça xadrez; blusa mula-manca; escrever abreviado no celular ou internet; videolocadora sem filme antigo; rapidinha; lata de cerveja; lápis que não aponta; pagode universitário; iogurte sabor coco; morangos mofados; forró; brega; encomenda urgente; partida de dominó; palestra motivacional; cabelo que não se penteia; olho vermelho em foto; mania de limpeza; mania de você; monstro da mpb; tom zé; soft porn; morder em pedra na comida; dentes sensíveis; creme dental para dentes sensíveis; led queimado; cinzeiro cheio; quimba de cigarro; frutos da terra; horário de verão; propaganda eleitoral gratuita; no frigir dos ovos; jogo amistoso; lente de contato colorida; música sertaneja; palito de dente; jaca; pirulito-que-bate-bate; canção de ninar; fazer a vaquinha; pe. marcelo rossi; xingar a mãe; mancha de nódoa; fruta podre na geladeira; óleo composto de soja e oliva; chupada no pescoço; espinha inflamada; declarar imposto de renda; empurrão; lente de óculos suja; campanha beneficente; varrer calçada; spam; corrente de fé; histórias que o povo conta; música alta dentro do carro; sirene; conflito árabe-israelense; fogo de palha; comercial do shoptime; onda de calor; zona de convergência; divisor de águas do nosso tempo; coral infantil; chinelo arrebentado; fazer lista de compras; andar calçado na chuva; xícaras sem asas ou pires; antônio carlos magalhães; porta de vidro; miopia; fotofobia; cheiro de roupa suja; enxaguar roupa no tanque; esperar cinco dias úteis

domingo, 25 de janeiro de 2009

BRASÍLIA



Fui à Brasília no ano passado, em decorrência da realização de uma prova de concurso que eu participava. Não tinha mesmo esperanças de passar, embora tenha sonhado bastante com o quanto me ajudaria um bom salário... Pelo menos conheci Brasília de perto, e quando esperava o ônibus de volta para Goiânia, numa plataforma fétida e esquisita, escrevi este poema:

Brasília, cidade fria
Concreto e aço a brotar do cerrado devastado
Cidade que desperdiça espaço
Ruas difíceis de atravessar, pretas, cinzentas
Brasília, cidade clara
Onde procuro o preto dos quilômetros de asfalto
Para descansar as minhas retinas
Brasília, cidade suja
Terra vermelha que aflora dos gramados ralos
Dos caminhos sulcados pelos passantes nos mesmos
Calçadas encardidas e tudo preto de fuligem
Brasília, cidade dos automóveis
Que se enfileiram às dezenas nos sinais fechados
Carros enormes carregando um só egoísta
Brasília, cidade do desperdício
Muito céu azul e luz
Muita gente
Muito poder
Brasília, cidade cara
Comida cara
Passagem cara
Gente mau-humorada
Brasília, cidade orgulhosa
Gente desconfiada nas ruas, gente que não acolhe
Gente que nega uma informação, por medo
Por despeito, ou indiferença, sei lá
Brasília e seus postes elétricos
Sozinhos, curvados em reverência a seus monumentos
Fios escondidos, flores de luz e metal a brotar do asfalto
Brasília, cidade-modelo
Brasília, cidade-futuro
Brasília, cidade branca, preta, cinza, bege
Brasília, cidade sem montanhas
Brasília, cidade alta
Brasília das árvores leguminosas, pequenas
Brasília dos espaços vazios, prédios modernos
Brasília e seu mar de hotéis caros
Das dezenas de ônibus nas ruas
Das grandes distâncias
Das cidades satélites
Das nuvens sob o azul cerúleo
Do capim amarelado
Do verde morto
Dos prédios baixos
Das noites frias
Dos ruídos
Brasília, cidade mal-cheirosa.